Somente as profissionais é que trabalham? Ser do lar é não trabalhar? Desde quando as coisas viraram pelo avesso? Uma conversa franca sobre a mulher, o trabalho e a famÃlia.
Dia desses eu fui num dos mercados mais conhecidos da minha cidade. Estava à procura de uma rede. Andei para lá e para cá; o mercado estava vazio. Inúmeros quiosques estavam esperando um cliente - cenário perfeito para uma boa pechincha. Num deles, encontro uma mulher de uns 20 anos. Era alta, forte, disposta. Pergunto o preço da rede que estava exposta. Prontamente ela tira a rede, fazendo a maior bagunça. Eu falo: "pode deixar lá mesmo, moça! Eu só quero saber o preço". "Não! Eu quero que você veja!", falou. Eu repliquei: "não precisa... vai desarrumar tudo e você terá de arrumar novamente!". "Ah, senhora, deixa eu trabalhar! Se eu não quisesse trabalhar eu ficaria em casa!".
PeraÃ. Se eu não quisesse trabalhar eu ficaria em casa? Como assim? Ah... não pude ficar calada. Disse-lhe: "Veja o que fala, moça! Em casa você teria muito mais trabalho do que aqui". E então eu lembrei as inúmeras atividades do lar que ela poderia estar fazendo naquele momento. Ela pensou um pouco e disse: "...realmente. Em casa trabalhamos muito mais".
"Pobre mulher!", pensei. Ela é apenas fruto de uma sistema maligno que a convenceu a abandonar o lar em busca de uma suposta realização pessoal. Ela não estava ali porque precisava. Suas motivações eram maiores, eram motivações sociais e filosóficas. Mesmo sentada, desperdiçando palavras à espera de um cliente, estava convencida de que estava trabalhando. Como filha da geração feminista, provavelmente nunca conheceu as alegrias do lar.
O certo é que o trabalho mudou com o passar do tempo. O que para nós pode ser uma conquista — ter uma carteira assinada e carreira dentro de uma empresa — para nossos antepassados poderia ser um sinal de subserviência. Submeter-se a um emprego (ou seja, a um empregador) não era algo tão desejado como é hoje. Em tempos passados, o trabalho era visto de uma forma muito mais ampla. Trabalho era negociar mercadorias, trabalhar com as mãos, arar a terra, vender o excedente do que era produzido. O estudo acontecia em casa e os professores eram quase membros da famÃlia. A figura do profissional liberal era comum; não havia grandes empresas, nem organizações que captassem mão de obra especializada, como temos hoje. O trabalho nas fábricas alterou o modo de vida e o próprio conceito de trabalho.

Talvez seja por isso que a dona de casa não se sentia inferior. Dentro de casa ela produzia, plantava, colhia, costurava, vendia, cozinhava, educava... ufa! Ela era uma rainha! Sim, esse trabalho era totalmente compatÃvel com as mulheres, pois elas podiam exercer a maternidade e ainda ser economicamente produtivas. Sem falar na rede de apoio que tinham: outras mulheres que ajudavam porque eram vizinhas, amigas, e dividiam os mesmos fardos da vida. Não se tem registros de depressão pós-parto, transtorno de ansiedade, fobia ou depressão na vida daquelas mulheres. Talvez porque não se registrassem. Talvez porque eram mais felizes mesmo. Elas eram mulheres economicamente produtivas EM CASA.
Nesse modo de vida, sair de casa era a pior escolha. "Por que sair se eu posso ser tudo dentro do lar?", por certo pensavam nossas avós. O trabalho lá fora não era a melhor opção para a mulher e era totalmente aquém das suas capacidades para a formação da vida e sustentação da famÃlia. Leia os clássicos, veja as pinturas do passado... todas elas retratam a mulher-mãe como uma mulher ativa, produtiva e DO LAR. Diferente do que pintaram as feministas, as mulheres não eram oprimidas, mas libertas das garras do mercado de trabalho lá de fora, livres em suas casas para serem o que quisessem ser.
O trabalho era realizado não somente pelo chefe da casa, mas por todos. A casa era uma unidade econômica produtiva e autônoma. E, não muito longe dos nossos dias, ainda guardávamos alguns resquÃcios desse modelo. Meu pai, por exemplo, era um profissional autônomo, cuja oficina funcionava em casa. Era normal encontrarmos casas que funcionavam como ponto de trabalho. Lá em casa, era normal trabalhar com meu pai, ajudando de alguma forma nos seus serviços. O bom de tudo isso era poder usufruir de sua presença. Marido e esposa estavam juntos, o dia inteiro. As crianças, depois da escola, ajudavam no trabalho - era um verdadeiro empreendimento familiar.
Nesse contexto é fácil entender o papel da mulher virtuosa. Ela não era uma feminista porque trabalhava, como querem nos fazer crer os feministas evangélicos. Aliás, feminismo não é sinônimo de trabalho, porque trabalho as mulheres sempre tiveram. E isso precisa ser desmascarado. A mulher virtuosa trabalhava com suas mãos EM CASA. O trabalho dela era no lar e para o lar, não para sua realização pessoal em algum lugar do planeta. Todos os seus esforços eram para o bem-estar do marido, filhos e casa. As mulheres não tinham essa necessidade de construir um nome, uma carreira. Elas estavam bem satisfeitas em fazer parte de uma engrenagem que funcionava: a famÃlia. Cuidar do lar era um dever social e uma obrigação moral. E não somente as mulheres tinham seus papeis sociais definidos, como os homens eram chamados a sacrificarem-se em prol da famÃlia.
Continuaremos no próximo texto explicando o que levou algumas mulheres a desejarem sair de suas casas e como isso alterou o formato familiar e o sentido do lar.
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Adna S. Barbosa

