Algumas imagens chocantes, cujo objetivo é apresentar estereótipos da vida moderna, hábitos diários e como a tecnologia e o corre-corre da vida alterou nossas prioridades e valores.
Escute o áudio aqui:
Outro dia estava com meu esposo e filhos na área comum do edifício em que moro. Um vizinho aproximou-se e começou uma conversa descontraída sobre família e filhos. Logo descobriu que nossa filha mais nova de 3 anos não estudava (ainda! - como eles dizem quando tomam conhecimento dessa situação). Expliquei-lhe que eu dedicava meu tempo em casa com os filhos e que ensinava algumas coisas para a caçula. Ele prontamente devolve às minhas palavras a afirmação: "a criança que pode ficar em casa aprende mais que na escola!". Claro, concordei com essas palavras. Mas, para completar, ele solta essa: "quando os pais podem, né? Como eu não posso, tenho que colocar na escola". Eu retruquei: "não a colocamos na escola ainda porque entendemos que a primeira infância deve ser desfrutada ao lado da família. Meu marido não é um milionário que pode bancar uma vida de luxo para mim enquanto fico em casa com os filhos. Abrimos mão de muita coisa para ter tempo com eles: não viajamos, não vamos ao shopping, economizamos nas viagens. Nosso dinheiro é contado, e é um sacrifício que fazemos para aproveitar cada minuto ao lado dos nossos filhos".
Não foi a primeira vez que ouvi essa acusação. Quase sempre que converso com alguém que descobre que sou "do lar" e que percebe em mim uma enorme satisfação por usar o meu tempo dentro dele cuidando do marido e filhos, ouço essas insinuações: "ah, você pode!", "precisamos trabalhar muito!", "gostaria muito, mas..." e por aí vai as mais variadas desculpas. Sim, claro que há casos e casos. Alguns realmente precisam de um reforço extra da esposa. Mas uma boa parte das mulheres que encontro tem marido muito bem sucedido, bem empregado, com estabilidade, etc. E ainda assim preferem ausentar-se de casa para "não ficar pra trás", ou "para realizar-se profissionalmente". Quando encontra uma sem-juízo como eu, que não se envergonha de dizer que não tem babá, que não trabalha fora e que ama o que faz para a família, sente-se intimidada e parte para o ataque: "mas você é assim porque pode!". Ora, e vocês não podem também? "Não, não podemos". Quando exaurem seus argumentos a favor da vida lá fora, apelam: "Precisamos dar as coisas para nossos filhos!".
Coisas? Como assim? Quer dizer que seus filhos precisam mais das coisas do que de você? E quanto vale sua presença? Já pensou nisso? Aquela roupa de marca vai rasgar, o tablet vai desatualizar, o smartphone vai ser superado, a escola cara não vai lhe substituir, por melhor que seja, a viagem bacana é sem graça se não houver conexão de alma entre seus viajantes, as festas se acabam ao apagar das luzes, mas...
...Aquele beijo de "bom dia!", aquele cheiro da cozinha, aquele abraço apertado, aquela roupa lavada, a leitura daquele livro, aquele olho no olho, aquelas pequenas conquistas diárias ("ele está andando", "aprendeu a ler!", ou "que letra cursiva linda!"...), o conhecimento construído em conjunto, aquelas conversas ao redor da mesa, as brincadeiras de esconde-esconde, as lágrimas gentilmente enxugadas, as primeiras orações de fé, os desenhos rabiscados diariamente com frases do tipo "eu te amo", o primeiro amor vivido (e compartilhado com você!), a sabedoria adquirida, a conquista da maturidade... Ah, essas coisas não tem etiquetas, não se compram no shopping, não se buscam numa viagem. Elas acontecem no dia a dia, numa incansável rotina onde o amor supera a mesmice, onde a entrega supera o ócio, onde as pequenas, mas eternas coisas se revestem do seu real valor.
Não, eu não tenho dinheiro pra pagar aquele inglês, mas eu posso ensinar! Eu não tenho dinheiro para comprar aquela tecnologia de ponta, mas eu mesma invento a minha! Eu não tenho dinheiro para fazer uma viagem divertida à Disney, mas eu viajo todos os dias e me divirto nas risadas dos meus filhos, nos erros infantis, nas palavras recém aprendidas, no sobe e desce da montanha-russa do humor infantil! Eu também não tenho dinheiro para comemorar aniversários naquela badalada casa de festas, mas eu mesma produzo meus bolos, temperados com carinho, e enfeito minha casa com calor e boas lembranças...
Eu não quero ser lembrada como uma executiva bem-sucedida, que morreu de tanto trabalhar, não. Quero ser lembrada como a mãe dos meus filhos, como aquela que primeiro ensinou, aquela que primeiro acudiu, aquela que primeiro amou. E da próxima vez que me disserem: "você pode!", eu direi: "eu posso, sim! Eu posso viver sem nada disso e ainda assim ter uma vida mais plena e realizada que a sua! Porque felicidade não se compra, amor não se vende na esquina, e tempo não volta. Pense nisso antes de seja tarde".
Como é normal, haverá os que vão odiar a coluna e os que vão apreciar. Fora os indiferentes, para quem tanto faz: alienar-se ao menos por um tempo pode ser bom. Não ligar a TV de manhã, não abrir o jornal, não deixar que nada nos envenene a alma desde cedo. Por outro lado, há que saber: a alienação pode ser perigosa.
Pois quero falar da nossa intimidade, que vai ficando rara e complicada num momento em que nossa cultura apela para uma dramática inversão do público e do privado. Queremos (ou achamos que é preciso) saber tudo, revelar tudo, abrir a roupa, tirar a roupa, escancarar a casa, o quarto, filmar a cama, relatar o dia a dia minuto a minuto, para um ou milhares de desconhecidos ou amigos virtuais. E sobretudo flagrar o outro: a toda hora somos “flagrados” ou “flagramos” alguém, ainda que simplesmente andando na calçada com o filho pequeno. O que importa numa pessoa, a dita celebridade ou (que alívio) um anônimo cidadão comum, não é ser uma pessoa decente, interessante, produtiva, engajada em coisas boas, conciliadora na hora certa e indignada idem, mas que esteja com tudo à mostra. Se não tiver uma pontinha de escândalo, não interessa. Discrição não está com nada, recato é coisa fora de moda, os tímidos precisam ser fortes e resistentes na sua timidez abençoada.
Estamos ávidos de exposição, nossa e alheia. Por exemplo, vai parecendo obrigatório gritar aos quatro ventos se somos gays ou não. Receio que em algum tempo ou não gays serão objetos do mesmo horrendo preconceito que hoje persegue os próprios. A orientação sexual de cada um, seja ela qual for, deveria ser encarada com naturalidade (esse é o objetivo de todos os justos movimentos e manifestações pelo mundo), como a cor da pele, o formato dos olhos, o peso, o jeito. Um dia será assim, talvez. Mas derrubar um preconceito é longo e duro trabalho. Quanto mais gritamos contra ele, mais ele aparece e se fortalece. É preciso passar um tempo, acalmar-se a onda, equilibrarem-se as coisas e as emoções , para que a gente possa encarar o outro com mais respeito, e que isso seja o habitual. Sem que se tenha de expor intimidades, fazer barulho, causar impacto, agarrar-se em público como na cama, onde vale o amor, não o escândalo. (Isso se refere a todos, em tudo: alguma elegância, algum comedimento, tornam a vida mais palatável.)
"Discrição não está com nada,
recato é coisa fora de moda.
Estamos ávidos de exposição,
nossa e alheia"
E isso não só em questões sexuais. Tem-se falado sobre amamentar em público, coisa que sempre se fez quando necessário. Com discrição. Amamentar é natural, é belo, é saudável, mas, se tiver de ser em público, sempre há como proteger mãe e bebê, nesse ritual de intimidade: um lenço, um virar-se para outro lado. Não é preciso vociferar, expor-se raivosamente. Talvez a palavra seja: agressivamente. Amos, sexo, afeto maternal, alegria, felicidade, ate dor, tornam-se naturais se tratados como algo natural, não escrachado para chocar eventuais espectadores ( os que ainda se chocam com alguma coisa).
Não me lixo para a opinião dos leitores. Ao contrário. Mas não me importa, às vezes, parecer antiquada. Amantes, manifestantes, quaisquer pessoas numa condição que busca ser respeitada, ou na luta mais louvável contra qualquer maligno preconceito, podem protestar sem uma feroz agressividade que traz mais hostilidade, quando o que a gente quer é o direito de ser quem se é, como se nasceu, como se gosta ou como se pode ser. Com dignidade, com altivez, com compostura. Em qualquer aspecto da humana lida e luta, tão múltipla e variada.
Talvez este seja ainda o momento do grito, do peito de fora, da carícia ardente em público, do possível escândalo. Com o tempo, imagino e espero, a gente vai mudar, as coisas vão se estabelecer, alguns preconceitos vão cair ( outros surgirão, com certeza, porque nós somos assim). É possível que sempre haja gritaria e humilhação de um lado, crueldade e mesquinharia do outro, seja em que aspecto for. Que nesse caminho se preserve, em tudo o que envolva intimidade, isso que todos desejamos tanto: respeito, a começar por nós próprios e a nossa circunstância.
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Lia Luft *Escritora gaúcha e tradutora brasileira. É também uma professora universitária aposentada e colunista da revista semanal Veja.
Fonte: Revista VEJA impressa, ed.2224 – 06 de julho de 2011, pg.24
AS MULHERES são lindas (mentira: nem todas são lindas, mas para fins argumentativos, etc, continuemos). Elas são lindas, as mulheres. Nem sempre estão esplêndidas (nós nunca estamos), mas entendemos: é o cotidiano, é o dia-a-dia, é o Facebook. Não há problema e não há ironia alguma. Elas são lindas quando vão ao mercado. Elas são lindas quando vão à padaria. Elas são lindas quando chegam com as sacolas e estão lindas quando resolvem começar a dieta na segunda-feira ou pesquisar sobre as tais 'gotas inteligentes' dos shampoos...
Elas, enfim, são como são: mulheres e, até prova em contrário, lindas. Até que recebem um convite de casamento. E quando uma mulher recebe um convite de casamento ela não recebe um convite: ela (acredita piamente que) recebe uma ameaça. Um insulto. Um sinistro recado. E sejam solteiras ou casadas, feministas ou inteligentes, todas fazem a mesma coisa: meticulosamente enfeiam-se a si próprias com as tinturas, os penteados, as maquiagens e os vestidos mais esquisitos e espalhafatosos que existem. É quase como se estivessem reagindo: "Vai se casar?! Pois você terá bonecas assustadoras na sua festa". E não importa se é solteira (sente-se magoada por ainda não ter sido a eleita ou a eleitora de alguém) ou se é casada (sente-se magoada porque não pode se casar uma outra vez, e outra e mais outra, e quantas vezes for necessário para que se sinta a eleita ou a eleitora de alguém). O que importa é que fico realmente surpreso quando vou a casamentos. As mulheres rebocam as faces de um tal modo que só pode mesmo ser uma das duas alternativas: ou estão prontas para um atentado terrorista, ou têm o palhaço Bozo como personal stylist. Senhoras e senhoritas: menos é mais.
(Gustavo Nogy)





