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Episódio 1: Dorama - o novo ídolo das telas (Séries que viciam - como combater o ídolo das telas)
Séries que viciam - como combater o ídolo das telas
Episódio 1: Dorama - o novo ídolo das telas
Os doramas são o assunto do momento entre jovens e adolescentes, e até mesmo entre adultos. Neste episódio e nos próximos, vamos conversar sobre essas famosas séries coreanas conhecidas como Doramas. O vício em assistir essas produções só cresce entre os jovens e é preciso acender o alerta! Vamos, neste primeiro episódio, assentar as bases do que deve reger nossas escolhas culturais.
De início, quando ouvi rumores dessa novidade, procurei ver quem eram as figuras que atuavam no enredo. Logo de cara eu não gostei do que vi: homens com traços de mulher e quase nenhuma diferença entre os sexos. Não assisti a nenhuma série porque isso por si só ativou meu circuito de rejeição! Mas, os comentários entre os adolescentes continuaram, então ouvi de alguns adultos que as histórias eram inofensivas e que era uma forma de permitir que os filhos assistissem a algo do mundo sem que isso maculasse os princípios cristãos ensinados em casa.
Não me dei por satisfeita. A propaganda vinha de todos os lados. Investiguei mais um pouco e resolvi lançar no meu perfil do Instagram algumas enquetes sobre os doramas. Para minha surpresa, muitos me responderam. A maioria era comentários de pessoas que um dia gostaram muito a ponto de ficarem viciadas e que depois entenderam que aquilo lhes fazia mal. Algumas mães me falaram das suas preocupações, outras fizeram críticas voltadas ao conteúdo e à forma da produção.
As descobertas instigaram meu espírito e resolvi firmemente buscar na Palavra de Deus respostas para essas produções e para os comportamentos que essas séries estão gerando nos jovens.
Ouça e compartilhe com alguém com o coração inquieto como o meu, ou com quem está descansado, confiando que não há nada demais nessas séries "fofas".
O mais assombroso não é que essa condição de gula e indigestão mental não seja salutar, mas que possa ser tolerada frequentemente com tão grande facilidade. A explicação para esse desconforto aparente reside no fato de que a distração, depois de certo tempo, leva a uma dissipação das energias mentais e a uma redução correspondente dos níveis de concentração, de tal forma que o processo em si mesmo cria a insensibilidade necessária. As percepções sutis, esses vislumbres de reinos transcendentes aos limites estreitos do universo convencional, são a primeira coisa a desaparecer. Longe de ser um mero empobrecimento, esse evento não anunciado significa a perda de nossa inteligência mais elevada, de nossa liberdade real e, em certo sentido, de nossa humanidade.
Entre os inúmero fatores em nossa civilização contemporânea, que tendem a agravar esse problema, o primeiro lugar deve ser dado aos meios de comunicação de massa, e especialmente à televisão, cujo impacto sobre a disposição e a vida mental do público em geral é virtualmente incalculável. Só precisamos considerar a profusão de entretenimento, notícias, propaganda, tragédia, vulgaridade e pura fofoca que essa verdadeira caixa de Pandora libera aleatoriamente em cada casa, para maravilhar-nos sobre como o público foi capaz de sobreviver a essas incursões sem sofrer uma perda completa da sanidade! Alguns dizem que as plantas podem ser mortas por uma overdose de rock , e podemos assumir que se um animal pudesse ser forçado a se interessar por uma avalanche similar de estimulação desarmônica, colapsaria imediatamente. E ainda assim o homem parece florescer com tal ração.
Em face aos graves perigos, especialmente para a vida espiritual, resultantes dessa dominação sem precedentes da sociedade pela mídia, surpreende-nos quão pouco as lideranças cristãs buscaram avisar aos fiéis. Ainda que o ato de ingestão de programas de TV à base de vinte e três horas por semana possa não implicar em si mesmo, digamos, um pecado venial, seria necessária uma falta monumental de perspicácia para se concluir que tal estilo de vida é compatível até mesmo com um mínimo de espiritualidade! Deixando de lado o conteúdo efetivo desses programas – ao qual voltaremos na última parte – gostaríamos de apontar neste artigo que a dispersão em si mesma é categoricamente oposta ao ethos Cristão. E o é de tal forma que o problema a nos confrontar toca o próprio coração da doutrina cristã.
Consideremos as palavras de Cristo em Mateus 12:30: quem comigo não ajunta, espalha. Agora, de acordo com a interpretação tradicional, quem não ajunta comigo significa Satã, e o que está sendo espalhado é a coletividade das almas humanas. Assim como as ovelhas são espalhadas por um lobo predador, também as almas são espalhadas pelos incontáveis atalhos do erro, que divergem em todos os sentidos da única verdade central. Mas há também outra interpretação, mais diretamente relacionada ao nosso tópico, de acordo com a qual quem comigo não ajunta é o próprio homem, na medida em que tenha divergido do caminho da salvação, e o que é espalhado é sua alma, ou melhor, os múltiplos poderes de sua alma. Nos caminhos desse mundo, esses poderes se dispersam indefinidamente, como um monte de poeira lançado ao ar.
Nesta perspectiva, aquele que ajunta com Cristo é também o que entra pela porta estreita (Mateus 7:13), o mesmo que passa pelo caminho apertado, que leva até a vida. De fato, o caminho apertado e a porta estreita sugerem a idéia de concentração, de ajuntamento de muitas coisas em uma só, assim como a porta larga e o caminho espaçoso sugerem expansão ou dispersão. Os adjetivos espaçoso e largo podem, portanto, ser uma referência não simplesmente à escassez ou abundância respectiva de viajantes, mas também à condição da alma enquanto viaja por cada um desses caminhos. Para substanciar essa interpretação, observemos que a porta estreita corresponde evidentemente ao buraco de agulha na parábola do homem rico, que achava difícil entrar no reino dos céus. Agora, quem é esse homem rico, e qual é a natureza dessas possessões, que obstruem sua entrada? A resposta é dada pelo próprio Senhor quando Ele diz, “Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Aqui somos informados de que a pobreza através da qual alguém pode passar pela porta estreita – e também passar através do buraco de agulha – é uma pobreza espiritual, uma pobreza referente à condição da alma. De fato, não pode haver dúvida de que nossa alma, em seu presente estado, é eminentemente comparável ao homem rico. E por isso, ao escutarem essa parábola, os discípulos de Jesus ficaram excessivamente assustados, dizendo, “Quem então pode ser salvo?” Eles ficaram profundamente preocupados, pois presumivelmente entenderam em seus corações que aquilo que foram chamados a atingir era humanamente impossível. Então nosso Senhor lhes confortou, e a nós, acrescentando que para Deus todas as coisas são possíveis. Através de mais encorajamento, Ele nos fez entender que aquelas possessões interiores, as quais todos que seguem Cristo devem abandonar, são na verdade um fardo para a alma. Por elas nós trabalhamos e ficamos sobrecarregados, e disso somos liberados quando andamos nas pegadas de Cristo. Porque meu jugo é suave, e meu fardo, leve (Mateus 11:30).
O abandono de tudo que é estranho à essência da alma não é somente uma purificação e uma catarse, mas é também, ao mesmo tempo, um ato de descanso e concentração, através do qual os poderes espalhados da alma são recolhidos de todas as direções, para serem reintegrados no centro luminoso de qual irradiaram. Esse centro é o coração místico do qual os profetas e os santos falaram, o templo interno onde Deus reside em segredo, e é, em última instância, o oratório ao qual Cristo alude em Mateus 6:6, quando Ele nos exorta: entra no teu aposento e, fechando a porta, ora a Teu pai que está em secreto [...].
O contexto de Mateus 6:6, no entanto, não deixa dúvidas de que a idéia de entrada no santuário interior deve admitir graus, de forma que muito antes que a perfeição completa da santidade seja atingida, nós, que ainda estamos sujeitos à corrupção do mundanismo, possamos experimentar um descanso parcial, e alguns momentos de repouso espiritual. [...] Quanto mais profunda e habitual essa conversação se tornar, mais harmoniosa e frutífera também será nossa vida exterior. Na verdade, o grande segredo é levar a paz e interioridade da contemplação até a vida ativa, para que, onde quer que estejamos, ou qualquer que seja a tarefa que nos chamar, permaneçamos concentrados, com nosso olhar interno fixo em Cristo. É nesse estado, quando seus olhos forem bons (Lucas 11:34), que um homem realiza seu grande trabalho, ou melhor, é nesse estado que nosso trabalho é santificado, pois então nós obramos as obras de Deus (João 6:28). Tendo iluminado uma candeia ao acender nossa alma com o amor de Deus, somos exortados pelo Próprio Cristo a colocar essa candeia ardente sobre o candelabro, para que os que entram vejam a luz. (Lucas 11:33).
Dessa reflexão sobre os ensinamentos de nosso Senhor emerge o fato de que a vida cristã é necessariamente oposta a tudo que espalha e dissipa os poderes da alma, a tudo, em outras palavras, que atrai o homem para longe de seu centro, que o faz esquecer Deus. O que está em jogo aqui, seja dito, vai muito além do “pecado” ou da “concupiscência da carne”, ou pelo menos da forma como esses termos são ordinariamente compreendidos. Pois existe um tipo de tendência pecaminosa, um modo sutil de concupiscência, inerente à nossa natureza sensorial e imaginativa, que como uma voz clamorosa perturba e agita com sua tagarelice incessante. Apesar de toda sua inocência enganosa, esse “demônio da distração” interior pertence à herança infernal que chegou até nós como consequência do pecado original. “O que mais é a iniqüidade”, declara Santo Agostinho, “senão um desvio da vontade de Vós, Ó Deus, que é a Suprema Substância: ela joga fora o que é mais interior e incha gananciosamente pelas coisas exteriores”. Como é expressiva essa frase “incha gananciosamente”, pois em verdade essa paixão pelas coisas exteriores realmente incha a alma excessivamente, como podemos aprender do camelo na parábola do Evangelho.
O crescimento em “massa” é ao mesmo tempo uma dispersão das energias psíquicas, como já foi apontado anteriormente, assim como um aumento das magnitudes espaciais no caso de uma expansão centrífuga envolve uma dispersão concomitante do raio concêntrico. De acordo com essa analogia, o movimento característico da vida espiritual é contrativo e centrípeto, um recolhimento em um ponto central, o qual, não tendo magnitude, é, de fato, como um grão de mostarda (Mateus 13:31). Aqui, na menor de todas as sementes, repousa escondida a realidade eterna de tudo que pode ser encontrado através da vastidão do espaço cósmico e, na verdade, de tudo que já foi e tudo que será. Verdadeiramente, todas essas coisas vos serão acrescentadas, e nada vos será impossível (Mateus 6:33,17:20).
É, no entanto, a tragédia do homem decaído que ele não tenha “fé como um grão de mostarda”, pois como Santo Agostinho lamenta, nossa fé está nas “coisas exteriores”. Essa é a situação deplorável e perversa, da qual devemos nos libertar, com a ajuda de Deus Todo-Poderoso. “A perfeição da alma,” declara Mestre Eckhart, “consiste na libertação da vida que é parcial e a admissão à vida que é completa. Tudo o que está espalhado nas coisas inferiores é recolhido e ajuntado quando a alma se eleva até a vida onde não há oposições”. O que presentemente conhecemos por experiência é aquela “vida que é parcial”, uma vida dispersa, se assim podemos dizer, por uma infinitude de momentos temporais, e limitada em cada ponto pelos opostos inescrutáveis do passado e do futuro. A outra vida nós não conhecemos, pois não é manifesto o que devemos ser (João 3:2). Entre as duas existe uma ponte, e esta ponte é Jesus Cristo. É ele que ajunta tudo o que está disperso nas coisas inferiores, e é através Dele que a alma se eleva até a vida eterna. Mas permita-nos relembrar isto também: aquele que comigo não ajunta, espalha.
Idealmente, essa concepção de comunhão com Cristo implica nada menos que uma total integração de nossa vida através da lembrança incessante de Deus. Como os Tessalonicenses, nós também somos chamados a orar sem cessar, e isso a despeito da enormidade de nossas incapacidades. Não esqueçamos nunca, em Deus todas as coisas são possíveis – e mesmo que se admita que o objetivo é quase inatingível, isso não legitimaria o tipo confortável de Cristianismo de “meio-período” que está em alta demanda, não mais do que a afirmação do apóstolo João de que todos os homens são pecadores pode ser tomada por uma legitimação do pecado. Independentemente do que qualquer um possa sentir sobre o assunto, permanece o fato de que não bastará reunir-se com Cristo em ocasiões especiais, somente para espalhar com o mundo todo o tempo restante. Para um vislumbre do que significa seguir Cristo na prática, nós devemos consultar as vidas e ensinamentos dos santos, não esquecendo que – longe de serem anormais – os santos são em verdade as únicas pessoas completamente sãs nesta terra. Apesar de nossos sentimentos democráticos, somos obrigados a admitir que as opiniões da maioria têm pouco peso quanto se trata do Reino de Deus, pois como o Próprio Senhor declarou, são poucos, e não muitos, os que conhecem o caminho estreito, que leva até a vida. Não sejamos enganados então por ensinamentos diluídos, não importando quão vociferante for sua proclamação, lembrando que é muito melhor mirar alto e fracassar do que negar o ideal desde o princípio ao rebaixá-lo. [...]
Na realidade, nada poderia ser mais certo, ou mais auto-evidente, do que a oposição do espírito desse mundo ao Cristianismo, assim como a do próprio Cristianismo ao espírito desse mundo. De fato, quem poderia ler o Evangelho segundo João, por exemplo, e ainda assim ter dúvidas sobre isso? Pois Cristo estava certamente falando para todos nós – a todos que seriam verdadeiros Cristãos – e não só aos Seus discípulos imediatos, quando disse: Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se vós fósseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. Não podemos deixar de nos perguntar, às vezes, se essas palavras ainda estão sendo lidas, ou se ainda são levadas a sério. [...]
Uma das principais fontes de autoridade em que estas “teologias do progresso” supostamente se sustentam é a ciência moderna, começando pela física cosmológica. Mas aqui, também, temos espaço para questionamentos. Pois o que a ciência nos revela nos termos mais inequívocos é um panorama de mudança contínua, um universo Heracletiano no qual todas as coisas estão irremediavelmente em um estado de fluxo. Isso é verdadeiro, além disso, até mesmo para o universo como um todo, o espaço cósmico em si mesmo, do qual é dito constituir-se de uma hiperesfera em expansão, uma bolha tridimensional, cujo raio está aumentando à velocidade da luz. Apesar de o centro dessa hiperesfera, o ponto central a partir do qual o cosmos inteiro está decaindo em tal incrível velocidade, não estar em qualquer lugar do espaço físico, ele pertence, de qualquer forma, ao limite matemático do espaço-tempo de quatro dimensões. A partir dessa perspectiva, que é essencialmente o ponto de vista da cosmologia relativista, o cosmos se aparenta a uma onda esférica expansiva se expandindo para fora, para longe do centro primordial, em direção à periferia do ser, o limite último ou circunferência, aonde a existência como tal chega a um fim. Uma imagem similar emerge no domínio biológico, pois vemos que a vida está inevitavelmente associada com a assimilação e o crescimento, que são modos da expansão, e todo processo vital move-se inexoravelmente em direção a uma periferia, na qual termina em morte. A Ciência nos provê pelo menos com uma grande certeza: tudo o que pertence a este mundo, desde as partículas elementares até as culturas e civilizações, passará; nada permanece.
Contra esse panorama, no contraste mais incisivo concebível a essa lei aparentemente inexorável, ergue-se o Cristianismo com sua incrível reinvindicação, a reinvindicação da religião: a grande lei deste mundo pode ser quebrada, sua tendência irresistível pode ser dominada, a própria morte pode ser conquistada vitoriosamente! Mas o caminho que leva a essa conquista é estreito e difícil de ser cruzado [...] pois não é o caminho das riquezas, mas da pobreza; não do prazer, mas da Cruz. Como a própria palavra indica, religião (re + ligare) é de fato uma “religação”; religação, isto é, ao Centro perdido, à Origem perdida, de volta a Deus.
O espírito de nosso tempo, ou o que também pode ser chamado de “mundo moderno”, é, fundamentalmente, nada menos que o mundo, no sentido Bíblico já mencionado, mas que agora se manifesta completamente. É o mundo enfim se glorificando em suas próprias possibilidades, desembaraçado de qualquer escrúpulo intelectual sobre a transcendência, ou de qualquer nostalgia restante de um paraíso perdido. É o mundanismo alimentando-se de si mesmo, organizado e mobilizado; de fato, é o mundanismo elevado à enésima potência , preparando-se para o ataque final contra os últimos bastiões remanescentes da religião autêntica – contra Ele que ousou dizer, Eu venci o mundo.
Como conclusão, gostaríamos de tocar uma vez mais no tema da mídia, mesmo que seja somente porque o impacto da mídia sobre nossas vidas assumiu proporções pantagruélicas. Até mesmo as estatísticas nuas nos dizem isso: apenas com a TV, vinte e três horas por semana nos EUA, e de acordo com uma pesquisa britânica, oito anos de vida. Oito anos retirados daquele resquício precioso de vida que resta depois do trabalho monótono do escritório e da fábrica, ou depois do agregado potencial de diversão que poderia ser dedicado a coisas mais elevadas, e acima de tudo, ao crescimento espiritual.
Em conexão com isso gostaríamos de indicar um livro penetrante e brilhante, publicado em 1977 sob o título significativo de “Cristo e a Mídia”, por Malcom Muggeridge, jornalista veterano e celebridade televisiva da BBC. O livro é baseado em três palestras proferidas em Londres, e eis como Muggeridge começou:
“É um truísmo dizer que a mídia em geral, a TV em particular, e a BBC especificamente, são incomparavelmente a maior influência singular em nossa sociedade atual, exercida em todos os níveis sociais, econômicos e culturais.
“Essa influência, devo adicionar, é, em minha opinião, exercida de forma irresponsável, arbitrária, e sem referência a qualquer referência moral, intelectual e muito menos espiritual.
“Ademais, se é o caso, como eu acredito, de que aquilo que ainda chamamos de civilização Ocidental está se desintegrando rapidamente, então a mídia tem um importante papel no processo ao levar à frente, apesar de fazê-lo inconscientemente na maior parte do tempo, uma poderosa operação de lavagem cerebral, através da qual os padrões e valores tradicionais estão sendo denegridos até desaparecerem, deixando um vácuo moral no qual os próprios conceitos de Bem e Mal deixaram de ter validade”.
A mídia reflete a mentalidade da nossa era. É disso que ela se alimenta, é o que ela amplifica mil vezes com a ajuda de uma tecnologia incrível, e eventualmente retransmite para um mundo de espectadores. Tendo emprestado uma voz e um corpo eletrônico para a mente coletiva, por assim dizer, ela avança impondo essa mentalidade ao público com uma força e uma fúria sem precedentes. Certamente Muggeridge não exagera ao notar que os historiadores futuros nos verão “como criando na mídia um monstro Frankenstein que ninguém sabe como controlar e direcionar, e se espantarão sobre como submetemo-nos tão docilmente à sua influência destrutiva e muitas vezes maligna”.
É interessante que Muggeridge veja a mídia principalmente como um fabricante de fantasias. Através do tubo de TV nós fugimos para um reino inventado, uma terra de conto de fadas, que mais e mais usurpa o lugar da realidade em nossas vidas. “A impressão prevalente que eu tenho da cena contemporânea é a de um abismo sempre em expansão entre a fantasia que a mídia nos induz a desejar viver, e a realidade de nossa existência como imagem de Deus, como residentes temporários cujo habitat verdadeiro é a eternidade”. Como um observador astuto, que passou a maior parte de sua vida nos bastidores da mídia, e que atravessou e reatravessou inúmeras vezes esse “abismo”, Muggeridge conhece muito bem o seu tema. “O abismo está lá, está se alargando em uma velocidade acelerada e os valores estão sendo denegridos até desaparecerem…” Isto constitui um dos maiores problemas a confrontar o Cristianismo hoje, ainda mais por ser insuficientemente reconhecido.
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Wolfgang Smith (matemático, físico e filósofo, também ex-professor do MIT). Traduzido por Murilo Resende Ferreira.
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| Quando se trata de desenvolvimento infantil, os pais devem se preocupar menos com o tempo de tela das crianças - e mais com os próprios filhos. |
Os smartphones já foram responsáveis por muitas situações desastrosas - mortes em carros, distúrbios do sono, perda de empatia, problemas de relacionamento - que quase parece ser mais fácil fazer uma lista das coisas que não são prejudicadas pelo seu uso. Nossa sociedade pode estar chegando a uma situação crítica no uso dos dispositivos digitais.
Mesmo assim, pesquisas emergentes sugerem que um problema-chave continua sendo pouco apreciado. Envolve o desenvolvimento das crianças, mas provavelmente não é o que você pensa. Mais do que crianças pequenas obcecadas por telas, deveríamos nos preocupar com pais conectados. Sim, os pais agora têm mais tempo com seus filhos do que quase todos os pais na história. Apesar de um aumento dramático no percentual de mulheres na força de trabalho, as mães hoje gastam mais tempo cuidando de seus filhos do que as mães na década de 1960. Mas o engajamento entre pais e filhos é cada vez mais insatisfatório, até mesmo falso. Os pais estão constantemente presentes fisicamente na vida de seus filhos, mas estão menos afinados emocionalmente .
Argumentar que o uso de telas pelos pais é um problema subestimado, não é descontar os riscos diretos que as telas representam para as crianças: evidências substanciais sugerem que muito tempo de tela (especialmente quando se gasta com imagens que se desenvolvem em ritmo acelerado ou violentas) é prejudicial aos cérebros jovens. Os pré-escolares de hoje passam mais de quatro horas por dia diante de uma tela. E, desde 1970, a idade média de início do uso da tela “regular” passou de 4 anos para apenas quatro meses.
Alguns dos mais recentes jogos interativos que as crianças jogam em celulares ou tablets podem ser melhores do que assistir à TV (ou YouTube), pois imitam melhor os comportamentos naturais das crianças. E, é claro, muitos adultos que estão bem sobreviveram a uma infância entorpecente e desperdiçada vendo muito lixo cognitivo. Ainda assim, ninguém realmente discute o tremendo custo que o tempo gasto em telas pode trazer às crianças: o tempo gasto em dispositivos é tempo não gasto explorando ativamente o mundo e se relacionando com outros seres humanos.
No entanto, apesar de toda a conversa sobre o tempo de tela das crianças, surpreendentemente pouca atenção é dada ao uso pelos pais, que agora sofrem com o que a especialista em tecnologia Linda Stone há mais de 20 anos chamou de “atenção parcial contínua”. Nós, como Stone argumentou, estamos prejudicando nossos filhos. O novo estilo de interação dos pais pode interromper um antigo sistema de pistas emocionais, cuja marca registrada é a comunicação responsiva, a base da maioria das aprendizagens humanas. Estamos em território desconhecido.
Especialistas em desenvolvimento têm nomes diferentes para o sistema de interação diádica entre adulto e criança, que constrói a arquitetura básica do cérebro. Jack Shonkoff, um pediatra e diretor do Centro para o Desenvolvimento da Criança de Harvard, chama isso de estilo de comunicação “servir e retornar”; os psicólogos Kathy Hirsh-Pasek e Roberta Michnick Golinkoff descrevem um "dueto de conversação". Os padrões vocais que os pais adotam durante as trocas com bebês e crianças pequenas são marcados por um tom mais agudo, gramática simplificada e entusiasmo exagerado. Embora essa conversa seja enjoativa para os observadores adultos, os bebês não se cansam disso. Não só isso: um estudo mostrou que crianças expostas a este estilo de fala interativo e emocionalmente responsivo entre os 11 e 14 meses sabiam duas vezes mais palavras aos 2 anos do que aquelas que não estavam expostas a ele.
O desenvolvimento infantil é relacional, e é por isso que, em um experimento, bebês de nove meses que receberam algumas horas de instrução de mandarim de uma pessoa presente puderam isolar elementos fonéticos específicos na língua enquanto que o outro grupo de bebês que recebera exatamente a mesma instrução via vídeo não conseguia fazê-lo. De acordo com Hirsh-Pasek, professor da Temple University e membro sênior da Brookings Institution, mais e mais estudos estão confirmando a importância da conversação. “A língua é o melhor prognosticador do desempenho escolar”, ela me disse, “e a chave para as habilidades linguísticas fortes são aquelas conversas fluentes entre crianças e adultos.”
Surge, portanto, um problema quando o sistema de pistas emocionalmente ressonantes do adulto-criança, tão essenciais para a aprendizagem precoce, é interrompido - por um texto, por exemplo, ou uma rápida olhada no Instagram. Uma conseqüência de tal prática foi notada por um economista que rastreou um aumento nos ferimentos de crianças à medida que os smartphones se tornaram predominantes (A AT & T lançou o serviço de smartphone em diferentes momentos em diferentes lugares, criando um intrigante experimento natural. Área por área, à medida que a adoção de smartphones aumentava, visitas de emergência aumentaram). Essas descobertas atraíram um pouco da atenção da mídia aos perigos físicos impostos por pais distraídos, mas temos sido mais lentos em calcular seu impacto no desenvolvimento cognitivo das crianças. "As crianças não conseguem aprender quando interrompemos o fluxo de conversas pegando nossos celulares ou olhando para o texto que passa pelas nossas telas", disse Hirsh-Pasek.
No início de 2010, pesquisadores em Boston observaram 55 cuidadores comendo com uma ou mais crianças em restaurantes fast-food. Quarenta dos adultos foram absorvidos com seus telefones em graus variados, alguns quase totalmente ignorando as crianças. Sem surpresa, muitas das crianças começaram a fazer pedidos de atenção, que eram freqüentemente ignorados. Um estudo de acompanhamento trouxe 225 mães e seus filhos de aproximadamente 6 anos para um ambiente familiar e filmou suas interações enquanto cada pai e filho recebiam alimentos para experimentar. Durante o período de observação, um quarto das mães usou espontaneamente o telefone, e as que iniciaram iniciaram substancialmente menos interações verbais e não verbais com o filho.
No entanto, outro experimento rigorosamente projetado, este conduzido na área de Filadélfia por Hirsh-Pasek, Golinkoff e Jessa Reed, de Temple, testou o impacto do uso de celulares pelos pais no aprendizado de idiomas das crianças. Trinta e oito mães e suas crianças de 2 anos foram levadas para uma sala. As mães foram então informadas de que precisariam ensinar a seus filhos duas novas palavras (blicking , que significava “pular” e frepping, que significava “tremer”) e recebiam um telefone para que os investigadores pudessem contatá-las de outra sala. Quando as mães foram interrompidas por um telefonema, as crianças não aprenderam a palavra. Em uma codificação irônica para este estudo, os pesquisadores tiveram que excluir sete mães da análise, porque elas não atenderam ao telefone, “deixando de seguir o protocolo”. Bom para elas!
Nunca foi fácil equilibrar as necessidades dos adultos e das crianças, e muito menos os seus desejos, e é ingênuo imaginar que as crianças poderiam ser o centro inabalável da atenção dos pais. Os pais sempre deixam as crianças para se entreterem às vezes.
[...] A desatenção ocasional dos pais não é catastrófica (e pode até mesmo aumentar a resiliência), mas a distração crônica é outra história. O uso de smartphones tem sido associado a um sinal familiar de dependência: adultos distraídos ficam irritados quando o uso do telefone é interrompido; eles não apenas perdem sinais emocionais, mas os interpretam mal. Um pai conectado pode ter mais facilidade de se irritar do que um pai engajado, supondo que uma criança esteja tentando ser manipuladora quando, na realidade, ela só quer atenção. Separações curtas e deliberadas podem, naturalmente, ser inofensivas, até mesmo saudáveis, tanto para pais quanto para crianças (especialmente quando as crianças ficam mais velhas e exigem mais independência). Mas esse tipo de separação é diferente da desatenção que ocorre quando um pai está com uma criança, mas comunicando através de seu descompromisso que a criança é menos valiosa do que um e-mail. Uma mãe dizendo às crianças para sair e brincar, um pai dizendo que precisa se concentrar em uma tarefa para a próxima meia hora - essas são respostas inteiramente razoáveis para as exigências conflitantes da vida adulta. O que está acontecendo hoje, no entanto, é o aumento do atendimento imprevisível , regido pelos bips e incentivos dos smartphones. Parece que nos deparamos com o pior modelo de criação de filhos imaginável - sempre presentes fisicamente, bloqueando, assim, a autonomia das crianças, mas apenas apresentando uma aparência emocional.
Consertar o problema não será fácil, especialmente porque é composto por mudanças dramáticas na educação. Mais do que nunca crianças pequenas (cerca de dois terços das crianças de 4 anos de idade) estão em alguma forma sob os cuidados institucionais, e as tendências recentes na educação infantil tornaram muitas de suas aulas altamente roteirizadas e sem brilho, com apenas um professor falando de um lado e as crianças passivas no outro. Nesses ambientes, as crianças têm poucas oportunidades de conversação espontânea.
Uma boa notícia é que as crianças pequenas são pré-preparadas para conseguir o que precisam dos adultos. Elas farão de tudo para chamar a atenção de um adulto distraído e, se não mudarmos nosso comportamento, elas tentarão fazer isso por nós; podemos esperar muito mais birras como as crianças de hoje na escola. Mas, eventualmente, as crianças podem desistir. São necessários dois para o tango, e estudos de orfanatos romenos mostraram ao mundo que há limites para o que um cérebro do bebê pode fazer sem um parceiro de dança disposto. A verdade é que nós realmente não sabemos o quanto nossos filhos sofrerão com a nossa falta de engajamento.
Naturalmente, os adultos também estão sofrendo com o arranjo atual. Muitos construíram sua vida cotidiana em torno da premissa miserável de que podem estar sempre ligados - sempre trabalhando, sempre cuidando dos pais, sempre disponíveis para o cônjuge e a qualquer um que precise deles, ao mesmo tempo em que ficam em dia com as notícias, lembrando também, na caminho até o carro, de pedir mais papel higiênico pela Amazon.
Nestas circunstâncias, é mais fácil concentrar nossas ansiedades no tempo de tela de nossos filhos do que arrumar nossos próprios dispositivos. Eu entendo esta tendência muito bem. Além de meus papéis como mãe e mãe adotiva, sou a mãe guardiã de um dachshund de meia-idade e acima do peso. Sendo de meia-idade e com excesso de peso, prefiro ficar obcecada com a ingestão calórica do meu cão, restringindo-o a uma dieta sombria de ração fibrosa, em vez de tratar do meu próprio regime alimentar e abandonar meu pão matinal de canela. Psicologicamente falando, esse é um caso clássico de projeção - o deslocamento defensivo das falhas de uma pessoa para outras relativamente sem culpa. No que diz respeito ao tempo de tela, a maioria de nós precisa fazer muito menos projeção.
Se pudermos obter um controle sobre a nossa “technoferência”, como alguns psicólogos têm chamado, estamos propensos a achar que podemos fazer muito mais para os nossos filhos simplesmente por fazer menos, independentemente da qualidade do seu ensino e independentemente do número de horas que dedicamos a eles. Os pais devem dar folga a si mesmos para se livrarem da pressão sufocante de querer ser tudo para todas as pessoas. Coloque seu filho em um cercadinho, já! Assista ao seu jogo de futebol se você quiser. Seu filho vai ficar bem. Mas quando você estiver com seu filho, coloque seu maldito telefone no cercadinho.
ERIKA CHRISTAKIS
Texto Original:


