A pulseira de berloques

19:19:00



Meu aniversário de 16 anos finalmente chegara! Pensei que não sobreviveria. Mas agüentei as pontas. Meus pais ofereceram uma festa de arrasar, com tantos convidados que nem consegui contar. Todo aquele dia foi incrível. Mas, enquanto via o sol se pôr, fiquei pensando que o melhor ainda estava por vir. Já era noite. O confete fora varrido do chão, os balões de hélio tinham começado a murchar e os papéis dos presentes haviam sido dobrados com cuidado para minha mãe reutilizá-los depois. Enquanto estava sentada junto a minha janela, observando o céu escuro, papai espiou dentro de meu quarto e, sorrindo, perguntou:
— Está pronta, querida?
“Que pergunta!?”, pensei enquanto me levantava. Há cinco longos anos esperava por essa noite, e ela finalmente chegara! De agora em diante, eu poderia sair com garotos! A ideia era meus pais me levarem ao meu restaurante predileto na noite do meu aniversário de 16 anos para formalizar o acordo, tratar das diretrizes, regras etc. E agora, enfim, estávamos a caminho. Sentamo-nos em um canto sossegado, meus pais de um lado da mesa e eu do outro. Quando acabamos de pedir a comida, imaginei que era hora de tratar do que interessava.
— Quer dizer que posso sair com qualquer cara que eu quiser, certo? — perguntei, quase incapaz de conter a empolgação. Mamãe e papai riram. Papai respondeu:
— Foi o que prometemos, não?
— Demais! — exclamei, fingindo uma dança de comemoração em meu assento. Meus pais haviam me contido anos a fio, mas agora eu poderia sair com quem quisesse!
— Só tem um detalhe — mamãe interrompeu com um sorriso. — Queremos que você também prometa algo. Eu estava preparada para ouvir um sermão ou algo do gênero.
— O que tenho que fazer agora? — perguntei, apoiando-me nos cotovelos e inclinando-me para a frente.
— Só abrir isso aqui — papai respondeu com um sorriso misterioso, enquanto me entregava uma caixinha branca. Hesitei por um instante antes de remover a fita cor-de-rosa. Abri a tampa lentamente e vi uma linda pulseira de prata. Mas não era uma pulseira qualquer. Era uma pulseira de berloques. E não eram apenas berloques. Eram pedras preciosas, pequenas, mas lindas. Doze berloques balançavam suavemente.
— Caramba! — eu não sabia o que mais dizer. O presente me pegara de surpresa.
— Você precisa entender que não se trata de uma pulseira qualquer — minha mãe informou.
— Eu sei — respondi. — É linda demais! Observei-a mais de perto. Havia seis berloques pequenos, intercalados com outros seis ainda menores. Os menores eram de um azul profundo. Imaginei que fossem safiras. E os outros seis eram, cada um, de uma cor diferente. Um parecia ser apenas uma pedrinha qualquer, um era rosa, um era branco, outro vermelho, verde e... Será que aquilo era um brilhante?
— Essa pulseira de berloques é simbólica — papai explicou, inclinando-se para observá-la mais de perto junto comigo. — Representa você e sua pureza. Servirá para guiá-la em seus relacionamentos com os garotos. Sua mãe e eu só podemos lhe dizer o que é certo, mas não podemos obrigá-la a acreditar no que dissermos. Esperamos que a pulseira ajude-a nesse sentido. Olhei para eles com expressão séria:
— Estou ouvindo.
— Esta pedrinha representa a primeira vez que vai segurar na mão de um rapaz — mamãe disse, apontando para o berloque cinza.
— É apenas um pedaço de granito polido. Parece sem valor, mas, ainda assim, faz parte de sua pulseira. Esse aqui é um quartzo rosa. Ela esfregou a pedrinha entre os dedos com delicadeza e continuou:
— Representa seu primeiro beijo.
— A verde é uma esmeralda — papai prosseguiu. — É seu primeiro namorado. A pérola é a primeira vez que você dirá “eu te amo” a outro homem além de mim. Soltei uma risadinha. Era sensacional.
— O rubi representa seu noivado. E o diamante, seu casamento — mamãe concluiu. Depois de alguns momentos assimilando a ideia, limpei a garganta para me livrar do nó de emoção e perguntei:
— E o que representam as seis safiras pequenininhas?
— Elas são para lembrá-la de quanto você é linda e preciosa para nós e para Deus — papai respondeu.
— Agora, tem um detalhe, e é a única regra que você precisará seguir ao sair com garotos. Só uma regra. Sem problemas. Mal eu sabia...
— Sempre que você realizar um desses atos de amor, um beijo, dizer “eu te amo”, segurar na mão... terá de dar ao moço a pedra correspondente. Pensei ter ouvido errado:
— Vou ter de entregar a pedra preciosa para o garoto?
— Vai ter de entregar para ele — mamãe repetiu.
Fiquei calada por um momento. Eles só podiam estar brincando. Mas não havia nem a sombra de um sorriso na expressão séria no rosto dos dois.
— Mas, pai... — deixei escapar em tom estridente. — Cada berloque vale uma fortuna! Não posso entregá-lo assim, sem mais nem menos!
Ele soltou um riso baixo, afetuoso:
— Você ouviu o que acabou de dizer?
Pensei por alguns instantes. Depois de um tempo, ele falou:
— Minha filha, sua pureza e seu coração são muito mais valiosos que essas pedrinhas. Se você não conseguir entregar os pequenos berloques, não creio que deva entregar aquilo que representam. Veio um frio na barriga seguido de lágrimas nos olhos. Por um lado, aquele presente me fez sentir valiosa e preciosa. Em contrapartida, fiquei furiosa. Não fazia sentido. Mas um dia faria.
Algumas semanas depois daquela noite, eu estava com meus amigos na praia. Quando eu disse que não ia entrar na água, Chad ficou me fazendo companhia. Eu estava mais interessada em ler que em virar um croquete de areia, e ele estava mais interessado em ficar sentado ao meu lado que em nadar com os amigos. Ele era um amor. Era uma gracinha. E tentou segurar minha mão. Por uma fração de segundo, mal pude conter a emoção. Foi quando um pedacinho horroroso de granito cruzou minha mente e me fez afastar de Chad. Fiquei extremamente chateada. Chateada com meus pais e com minha pulseira, que mais parecia uma algema; mas, principalmente, fiquei chateada comigo mesma. Estava deixando uma pedrinha controlar minha vida romântica.
Morrendo de vergonha, fixei o olhar enfurecido no pedaço de granito durante a caminhada de volta da praia. Foi então que Deus me acertou no alto da cabeça com uma revelação estarrecedora. Não podia entregar o pedacinho de granito. Fazia parte da minha pulseira que, de certa forma, fazia parte de mim. Não seria completa sem ela. Não era uma pedra preciosa, mas, ainda assim, tinha valor. Depois disso, fez sentido.
Por fim, Kevin apareceu. Nós dois nos divertimos e passamos um bocado de tempo juntos. Pensei que talvez o amasse. Pensei em dizer isso para ele. Pensei na minha pérola. No fim das contas, não o amava tanto quanto imaginava. Meus pais estavam certos. Não tinham como me obrigar a acreditar nas coisas que eles desejavam que eu acreditasse. Em vez disso, deixaram Deus usar a pulseira para me mostrar a verdade. Com a ajuda dos quatro, entendi quanto eu era preciosa, quanto minha pureza era preciosa. Entendi como os caras que não tinham valor eram apenas uma perda de tempo e um desperdício de emoções. Se eles não estavam a fim de conquistar a pulseira toda, por que deviam ficar apenas com uma parte dela? Nate achava minha pulseira o máximo. Por isso, nunca tentou pegar em minha mão. Nunca tentou me beijar. Mas pediu para eu me casar com ele. Nunca imaginei que tantos anos de tormento poderiam resultar em tanta felicidade. Pensei que era bobeira, exagero. Agora, posso dizer que nada em minha vida havia me deixado mais contente.
Ao entregar ao meu marido a pulseira de berloques inteira, perguntei-me por que havia parecido tão difícil me apegar àquelas pedrinhas se era tão extraordinário poder colocá-las todas nas mãos do homem que eu amava de verdade. Mas a história não termina aí. Agora, quem usa a pulseira é nossa filha.
 
(Sarah Kistler. “The Charm Bracelet”)

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