Socialização escolar: a socialização que não deu certo [Parte 1]

16:59:00



No Brasil, a educação domiciliar tem conquistado adeptos a cada ano. Não é de admirar, diante do caos educacional evidenciado no analfabetismo funcional, disfunções sociais e psicológicas relacionadas ao ambiente escolar, frustração das expectativas a respeito de uma educação que se mostrou ineficiente para a vida.

É comum associar a educação à possibilidade de conquistar um trabalho. Com essa educação que temos aí, tanto o conhecimento como o trabalho saem perdendo, já que um e outro são interdependentes no sistema.  Uma educação enfadonha e sem propósito associada ao trabalho joga para este último um fardo difícil de carregar. 
É por isso que hoje temos uma nova categoria de jovens, os “nem-nem”: nem estudam, nem trabalham. Esse contingente cresceu quase 6% de 2016 a 2017. A escola tirou o interesse natural pela busca do conhecimento e, ao mesmo tempo, deu ao trabalho uma conotação de extensão de um modelo maçante, que luta contra a vontade das pessoas. O que sobra é a busca por um prazer fugaz para escapar do fardo que é a vida.



Os principais motivos para o atraso escolar também estão incluídos nessas duas categorias: a necessidade de trabalhar e a incapacidade de acompanhar as imposições da idade e do currículo. Mais uma vez, o trabalho surge não como um projeto de vida promissor, mas como um lugar para onde se corre, fugindo de um ambiente que lhe causa atrasos. Esse ambiente é o lugar onde supostamente se busca o conhecimento. Porém, não se trata de um conhecimento que enobrece os que o procuram; pelo contrário, o sistema único e pré-moldado, que adota a padronização idade/série, exclui aqueles que não se adequam a ele. Tem-se então um dilema: a educação para um melhor lugar no mercado de trabalho promete crescimento, mas no processo, preocupa-se em selecionar os que se amoldaram ao sistema. Sair da escola é desqualificar-se para o mercado, e este só pode ser conquistado pela sujeição às exigências do padrão único educacional que desconsidera as aptidões e a individualidade dos que buscam o crescimento. No final das contas, a meta não é o trabalho nem a educação, mas o sistema.




Não satisfeito com seu fracasso, esse modelo recomenda a si mesmo como o único modo digno de aprender. Isso se revela no dado que mais chama a atenção: a evasão escolar. Não é sem razão: a desculpa da “evasão escolar” é usada para convencer a população da necessidade de matricular as crianças na escola. Embora não haja correlação alguma entre evasão escolar e o nível de educação no país, esse argumento é usado com fins publicitários que se utilizam do engano para ludibriar a maioria das pessoas, com o discurso de que a educação escolar compulsória é o remédio para as todas as mazelas. Isso é um tremendo paradoxo. Se a escola vai mal, outras formas de educar devem ser oferecidas e a escolha que mais der certo mostrará o melhor caminho para a educação no Brasil. No seu argumento em defesa da liberdade, Friedrich A. Hayek traz uma solução que se adequa à realidade:
O máximo que podemos fazer é aumentar as possibilidades de que certa combinação de dons individuais e de circunstâncias leve à criação de algum novo instrumento ou ao aperfeiçoamento de um instrumento antigo, e melhorar a perspectiva de que tais inovações se tornem rapidamente conhecidas por aqueles que podem beneficiar-se delas.

Sem incentivo ao conhecimento e com prejuízo ao trabalho, a escola de hoje assume um lugar que não é seu: o lugar da família na construção das relações sociais. Como a socialização não pode ser aferida por dados, ela se torna a razão irrefutável de sua existência. A socialização escolar é mais uma falácia usada pelo Estado que visa preparar as pessoas para fazerem parte do seu sistema único, que combate o pensamento livre e a livre iniciativa, e que não tolera o diferente.



SOCIALIZAÇÃO ESCOLAR: UM PREPARO PARA A VIDA?

Uma das principais premissas do sistema educacional escolar é que as crianças precisam se preparar para a vida em sociedade. Sobre essa afirmação foram construídas teorias e elaborados meios para se atingir esse ideal. Os intelectuais e as escolas institucionalizadas integram as colunas desse pensamento e práxis. 



Émile Durkheim, sociólogo francês que trouxe a obrigatoriedade escolar para crianças de 6 a 13 anos na França e a proibição do ensino religioso nas escolas públicas, desenvolveu a teoria de que o objetivo final da educação é a formação de pessoas que atuarão no espaço público. Para ele, a consciência individual é formada pela sociedade e a escola é o lugar para essa construção do ser social. "O indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são suas origens e as condições de que depende. E não poderá sabê-lo sem ir à escola, começando por observar a matéria bruta que está lá representada”, afirmou. Os ideais republicanos da educação pública, dominada pelo Estado, e laica foram postos em boa parte por Durkheim (Ferrari).

Essa socialização concentra seus esforços apenas na capacidade de atuar na esfera pública, secular e econômica. A socialização e a presença na escola, portanto, confundiram-se, tornando-se mutuamente dependentes e este conceito está profundamente enraizado no pensamento do brasileiro. É preciso esclarecer, no entanto, que antes da existência da escola, a sociedade já estava estabelecida, e antes das sociedades, estavam as famílias.


Mudanças na concepção da socialização

Entre o final do século 18 e o início do 19, o espírito nacionalista na Alemanha foi impulsionado após a derrota sofrida por Napoleão, em 1806. O filósofo alemão Fichte foi o primeiro a idealizar o modelo de escola gratuita e compulsória. Ele atribuiu a derrota alemã ao enfraquecimento da identidade nacional. Sua crítica foi que a Alemanha havia se tornado individualista e perdido o senso de comunidade que outrora fizera com que seus compatriotas sacrificassem o próprio bem-estar por amor à nação. Para ele, o pensamento livre do indivíduo e a sua liberdade de escolher de que modo conduziria sua formação foram as grandes falhas da educação tradicional. “Devo responder que esse reconhecimento e confiança no livre-arbítrio do aluno é o primeiro erro do antigo sistema”, disse. Esse modelo não atendia aos ideais de uma nação soberana. Foi quando o governo passou a decidir o que era melhor para o indivíduo, pois possuía a prerrogativa de lutar pelo bem comum (Hicks).

Sua ideia era condicionar as crianças para responderem aos ideais nacionalistas, forçando-as a sair da sua comunidade (famílias) para ocuparem o espaço onde aprenderiam a amar os outros, amar a nação, mais do que a elas mesmas. Foi assim que começou a escola gratuita e compulsório que hoje é chamada de lugar ideal para a socialização. O curioso é que esse projeto visava justamente o contrário da socialização. "É essencial", insistiu Fichte, "que desde o início o aluno deve estar contínua e completamente sob a influência dessa educação, e deve ser separado da comunidade e impedido de entrar em contato com ela".

Há claramente um tipo específico de socialização que a escola pretendia para as crianças: uma socialização para defender os interesses do Estado. O ensino tradicional visava fortalecer a identidade familiar e cultural, e por isso Fichte chegou ao ponto de dizer que a influência familiar era corruptora, ou seja, atrapalhava os ideais do Estado. Estava ali a sociedade ideal que mais tarde seria explorada por Marx. A escola ideal seria o ambiente utópico no qual todos poderiam cultivar o bem. A comunidade familiar era a vilã nesse processo, perpetuando tradições e valores individualistas que enfraqueciam o poder do Estado benevolente.

Essa concepção de socialização em massa mais tarde apareceria no Manifesto do Partido Comunista de 1848: "...o comunismo quer abolir as verdades eternas, quer acabar com a religião e toda a moralidade... [Os Comunistas] declaram abertamente que seus fins só podem ser alcançados pela derrubada violenta de todas as condições sociais existentes". Fica claro que para cumprir esse intento, far-se-ia necessário o rompimento compulsório das relações familiares para que apenas um espaço social fosse explorado com o fim de impor uma visão de mundo única e totalitária. Logo, aquilo pelo qual dizem batalhar é de fato o que eles querem matar: a diversidade social, o respeito pelas diferenças. A promessa é formar um grande família às custas da morte da família nuclear (Kuby).

A escola surgiu para buscar um ideal de governo, e não de um convívio em que se aprende com o diferente. Isso pode ser visto na padronização do pensamento que é conseguido à custa da liberdade. Para atingir esses objetivos, seria necessário o isolamento, a segregação por idade, a gratuidade e compulsoriedade da educação controlada pelo governo. Mas o preço pela gratuidade custou a liberdade das famílias. E essa tem sido uma das heranças malditas da institucionalização do ensino. O Estado, esse ser impessoal e poderoso, age supostamente em nome do bem através da educação. O professor americano John Taylor Gatto resumiu esse pensamento: “Nosso problema na compreensão da escolaridade obrigatória tem sua origem num fato inoportuno: o dano que faz desde uma perspectiva humana, é um bem desde uma perspectiva do sistema” (Lew Rockwell, 2010). A retirada do ambiente social foi a ideia central que norteou a formação da escola.

“É preciso uma aldeia para educar uma criança”, dizem os que defendem que a formação da criança deve ser feita fora de casa, nos espaços públicos. A aldeia, nos dias de hoje, ganhou contornos urbanos, com luzes incandescentes e imensos muros que em nada se assemelham às aldeias tribais cujo centro do saber estava na liderança máxima do clã. A aldeia se transformou num orfanato imenso, cercado por muros e equipados com sirenes, que segue padrões rígidos de horário. O que era para ser um espaço de convivência hoje é a mais pura negação do seu propósito. O que costumava ser um orfanato, lugar para crianças que esperavam a adoção, hoje se chama escola, um lugar para onde as famílias devem obrigatoriamente entregar as suas crianças aos cuidados frios de um Estado que mal sabe resolver seus próprios problemas.

Os defensores do modelo atual declaram que outras formas de educar, que por muito tempo foram e são ainda hoje praticadas com muito sucesso, não somente são insuficientes, como são danosas à vida em comunidade, e que, quando a família prioriza a transmissão de valores e tradições está sendo, na realidade, o pior inimigo da criança.

Sabe-se agora o que motiva aqueles que impõem a escolarização obrigatória: a hegemonia de pensamento e o controle do indivíduo, reduzindo sua vida a relatórios anuais usados para determinar quem são e como serão aceitos na sociedade. Isso não é socialização, é exclusão.

O argumento da socialização não é sobre as habilidades sociais da crianças. Crianças educadas em casa têm muito mais contato com pessoas, numa diversidade de idades, credos, sexo e cor, porque transitam por toda a parte, conversam e descobrem o mundo tal como ele é. A questão da socialização é querer que o governo dê forma às crianças. O medo do que os pais podem ensinar aos filhos em casa é a verdadeira preocupação do Estado que proíbe a educação familiar.


Continua...

(Adna S Barbosa)

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