"Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai..."

19:56:00



"Nada de culpas!" - é a expressão que ouvimos freqüentemente por aí, principalmente se alguém está contrariando as regras claras de um jogo e o faz conscientemente, tendo por isso mesmo a certeza de que lá na frente se dará muito mal. Logo aparece alguém "bem" intencionado e cochicha essas palavrinhas de "ânimo" ao pé do ouvido, pois afinal, já somos tão pressionados por tantos traumas, tantas culpas e isso só nos traz doenças... "Coitadinhos de nós! Sejamos mais positivos, acreditemos mais em nós mesmos! No final dará tudo certo, acreditemos!". E por um momento sentimos um alívio na consciência e prosseguimos fazendo tudo errado...

É interessante ver como hoje há um cuidado excessivo para que não machuquemos a auto-estima de quem quer que seja, ainda que esta auto-estima apóie-se na clara desobediência aos mandamentos divinos. Há pregadores até que preferem pregar apenas as boas novas de salvação, deixando de lado aquela parte do evangelho que aponta o pecado, as culpas do pecador, ou mesmo a doutrina do inferno, pois dizem eles: "o inferno é aqui mesmo. Por que falar de inferno, se o Evangelho é boas novas de salvação? Tornemos a mensagem atrativa e muitos se converterão!". Será? É assim mesmo que funciona?

Esse cuidado todo em conservar a boa imagem do indivíduo, ou de ressaltar as suas virtudes é fruto de anos de uma psicologia que repele toda idéia que trate o homem como um ser "alienado desde a madre, que anda errado desde que nasceu", como afirmou o salmista (Sl 58.3). Mas qualquer ciência ou filosofia que tenha como pressuposto uma bondade inerente ao homem, sem considerar sua disposição natural para o pecado e o caminho errado, é falha e ao final mostrar-se-á inútil para a vida. Tentar achar dentro de nós a cura para a alma doente é como procurar remédio num necrotério de corrupção.

Infelizmente, esse pensamento que diz "cada um por si e Deus por todos" tem invadido as mentes cristãs de hoje. Não podemos mais pregar, escrever ou conversar até mesmo informalmente sobre as verdades absolutas da vida sem que nos encontremos com milhares de pessoas fazendo "beicinho" e batendo no peito, lamentando não as suas próprias misérias e escolhas erradas, mas lamentando terem sido machucadas em seus sentimentos e opções de vida. Apontam o dedo e dizem: "você me ofendeu!", e já tratam de julgá-lo como um terrível opressor que tenta impor suas idéias pessoais às suas vidas. Essas pessoas não podem ser machucadas.

Ora, o evangelho de Cristo não é apenas um convite para vir a Cristo e aceitá-lo como um amigo, mas antes deste convite e da oferta desta maravilhosa bênção é preciso haver uma conscientização dos próprios erros, das escolhas erradas que fizemos. Deve haver antes de tudo uma mensagem que proclame: "arrependei-vos dos vossos maus caminhos e convertam-se ao Senhor!". Não há vida abundante em Jesus se não obedecermos ao Seu chamado: "quem quiser vir após Mim negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me". O segredo do sucesso pessoal está na obediência aos padrões divinos para a vida. Existe, sim, um padrão a ser seguido. Veja o que Moisés lembrou ao povo: "E o Senhor nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos, que temêssemos ao Senhor nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje. E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o Senhor nosso Deus, como nos tem ordenado" (Dt 6:24,25).

A verdade, é claro, é que não fomos bem sucedidos em obedecer o padrão de vida estabelecido por Deus e por causa da nossa desobediência e culpa, fez-se necessária a vinda do nosso Senhor Jesus. Ele é a nossa justiça. Ele sofreu todo castigo pelas nossas más escolhas de vida, para que eu e você fôssemos aceitos por Deus. Como é que agora você vem me dizer: "não me incomode em minhas escolhas?". Sabe, Aquele santo que satisfez a justiça divina, o único homem perfeito que existiu, ele nunca ofereceu um caminho fácil aos que se aproximavam e se aproximam dEle. Pelo contrário, ele chamava à consciência. Mandava calcular os custos do serviço a ele e a sua propaganda não usava das técnicas de marketing atuais. Ele dizia: "o caminho do lado de lá é largo e espaçoso. Se você me escolher, no entanto, sofrerá a perda de bens, de amigos e familiares. A minha bênção você não pode obtê-la antes de aceitar-me, mas garanto-lhe que estará lá, depois que você me aceitar com todas essas dificuldades inerentes à escolha". Em outras palavras, a escolha certa a ser feita primeiro confronta a nós mesmos, primeiro lança por terra nossas próprias certezas e estilo de vida e então, pela obediência da fé, experimentamos um antegozo do que nos espera na eternidade. Enquanto estivermos neste corpo e nesta vida vamos vencendo dia a dia, de fé em fé, de glória em glória. Um pouco hoje, um pouco amanhã. Sabendo que enquanto estivermos aqui, precisaremos dia após dia lembrar-se do nosso estado não totalmente redimido, pois ainda aguardamos a completa restauração deste corpo e mente. Vigiaremos para que o engano da nossa antiga carne e pensamentos, para que o engano do sistema mundano dominado por Satanás não nos façam novamente suas presas.

A culpa que sentimos por termos escolhido andar de costas para Deus não é apenas um sentimentozinho mesquinho, tão protegido pelos sábios deste mundo e experts em educação. Não se trata apenas de ter uma auto-imagem adequada (até porque longe dEle nunca conseguiremos refletir a imagem adequada!). A culpa que gera a vida é aquela que nos faz cair de joelhos diante de Deus, que nos faz reconhecer nossa falha em confiar no que Ele nos prometeu. Deus não nos chama para sentirmos remorso, ou para ajustarmos nossa boa imagem diante de alguém de quem esperamos louvores. Isso não passa de reflexos do próprio orgulho que mata a verdadeira vida. Ele quer ver arrependimento, verdadeiro arrependimento. Remorso nos dá uma momentânea sensação de vergonha diante de um fato ou pessoa, mas passa rapidamente e não produz frutos para a vida eterna. O arrependimento nos leva a um quebrantamento diante de Deus por termos desprezado a Sua Palavra e por não termos escolhido viver por fé.

Então, da próxima vez em que os padrões absolutos da palavra de Deus brilharem em seu entendimento, não se ofenda! Não queira achar dentro de você mesmo a verdade para sua vida. Seus pensamentos e planos de vida são falhos e nunca o levarão a experimentar a vida abundante que tanto você procura e que somente Deus pode dar em Cristo. A verdade não pode ser encontrada em nós - ela está fora de nós. Diante dela apenas nos curvamos. É por isso que tanto os que já foram convencidos, como os que se encontram com ela precisam render-se. Deus não somente está interessado numa fé saltitante nele (parece que disso temos muito hoje), como em que o arrependimento, a concepção da própria culpa preceda estas alegrias. Como disse Spurgeon: "estou convencido de que o arrependimento parece ser o irmão gêmeo da fé. A fé não vem com olhos secos, mas com grande choro e súplica e desejo ardente de encontrar refúgio na justiça divina - Jesus".

Eu estou convencida de que a verdadeira tristeza pelo pecado, aquele confronto da verdade de Deus com o nosso eu, trazendo pesar e dor para o homem na carne, acompanha toda vida do cristão. E quanto mais nos aproximamos de Deus e da Sua vontade, tanto mais rejeitaremos o modelo de vida do mundo, não porque somos melhores, pelo contrário, porque conhecemos nossas inclinações naturais com muito mais profundidade do que quando abraçamos a fé. À medida que caminhamos ao lado de Deus, à semelhança do Peregrino, vamos deixando antigos hábitos, os velhos modos de vida para abraçar a vontade de Deus. E nesse novo modo de viver conhecemos o tesouro de se possuir a Cristo, ao mesmo tempo em que nos entristecemos pela vida de outrora, pelo tempo em que perdemos de usufruir das delícias do Seu amor e provisão.

O sentimento de culpa pela rebelião aos padrões divinos permanece durante toda a vida do crente verdadeiramente salvo. Trata-se de uma tristeza piedosa que nos faz morrer dia a dia para nossas inclinações e viver para Deus. Não é mais uma tristeza amarga, mas uma doce tristeza que nos leva para mais perto de Deus. Enquanto vivermos aqui precisaremos estar constantemente em xeque para não seremos mortos pelos nossos próprios desejos. O incômodo no coração, o mal-estar consigo mesmo lhe levará para o Pai, reconhecendo sua petulância em viver longe daquele que é a fonte da vida.

Lembre-se sempre de que Deus nunca quer estragar os bons sonhos de vida. Ele não é um estraga-prazer, como a antiga serpente sempre nos fez crer, desde o Éden. "Ele não quer que você seja feliz", ela sussurra. O sentimento de culpa por ter escolhido um caminho mal é o começo de uma escolha acertada. Não resista a luz da verdade quando brilhar em seu entendimento! Deus é tão bom que envia o Seu doce e terno Espírito para convencer-lhe de que não é por aí, não é por este caminho, mas por aquele outro caminho. E quando Ele mostra, é porque ainda há esperança!

Há uma vida abundante do lado de lá! Abafe a voz do seu coração e ouça a voz da verdade, quando clamar! Deixe entristecer-se e finalmente corra para o Pai pedindo perdão. Spurgeon, em um dos seus sermões sobre o verdadeiro arrependimento, comparou essa insistência em não aceitar a vontade de Deus, que começa pelo reconhecimento da culpa, a uma criança que fez algo de errado e insiste em não se humilhar e pedir perdão. Enquanto ela tenta esconder seu erro, ela é infeliz. O tempo todo em que ela endureceu a si mesma, ela era miserável, ela sabia que era! Ela perdeu o beijo de boa noite de seu pai e o sorriso de sua mãe. E enquanto a teimosia durou, ela pensava que era muito corajosa, mas na verdade ela era muito infeliz. Mas, quando finalmente ela reconhece e diz: "Pai, mãe, eu estava muito errada em fazer o que eu fiz e eu realmente sinto muito". Então, ela recebeu o beijo do pleno perdão! E aquele foi um momento em que ela se sentiu mais feliz em toda a sua vida!

É esse o caminho que o filho de Deus sempre precisa trilhar. Sempre que a verdade confrontar nossas escolhas rebeldes, corramos mais uma vez para o Pai Celestial com aquela tristeza "segundo Deus", que opera a salvação, da qual ninguém se arrepende de tê-la sentido! (2 Co 7.10). Caia nos braços do Pai e ganhe o doce beijo de Seu amor que perdoa e lhe dá uma nova chance!

Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza. (Tiago 4:9)

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Adna S Barbosa

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